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Time abre mão de herdar vaga e faz campanha para rival ir aos Jogos Escolares

03/09/2017
Time abre mão de herdar vaga e faz campanha para rival ir aos Jogos Escolares

Escola municipal do interior da Paraíba se classifica para competição no Paraná. Sem dinheiro, desiste da vaga.


Imagine a cena. Você é pai ou mãe de um atleta de basquete masculino. O time de seu filho perde a final de um torneio estadual que classifica para o principal campeonato escolar do Brasil. O time campeão, contudo, desiste da competição, alegando falta de verba para viajar de Caiçara, no interior da Paraíba, para Curitiba, na capital do Paraná. O que você faz? Comemora a classificação tardia? Lamenta a desistência do time campeão, mas imediatamente vai comprar a passagem de seu filho? Ou mobiliza pessoas de todo o Brasil para garantir que aquele time que realmente merece a vaga viaje para a competição?

Pois os pais do time do Motiva escolheram a terceira opção. Uma improvável terceira opção que está envolvendo desportistas de todo o país e que já arrecadou mais de quatro mil reais. A saber, o Motiva é um dos colégios particulares mais tradicionais de João Pessoa, a capital da Paraíba, e que tem uma das mensalidades mais caras do Estado.

Tudo começou na final dos Jogos Escolares da Paraíba na categoria 12 a 14 anos, competição que dá vaga aos Jogos Escolares da Juventude. A final foi realizada em João Pessoa entre a Escola Municipal João Alves, de Caiçara, cujo time reúne atletas pobres de um projeto social da cidade; e o Colégio Motiva, de João Pessoa. O time de Caiçara venceu por 31 a 19 e conquistou a vaga. Mas, aí, começava o drama.

De início, o Governo da Paraíba tinha prometido financiar as passagens de avião de todas as escolas públicas que se classificassem para os jogos, que tem início em 15 de setembro. A poucos dias da viagem, contudo, o Governo mudou o discurso. E avisou que pagaria apenas as passagens de ônibus, resultando numa viagem de três dias da Paraíba até o Paraná (e o mesmo tempo de volta). Com o detalhe que os gastos em alimentação nestes seis dias ficariam por conta da equipe.

Paralelo a isso, o Comitê Olímpico Brasileiro, responsável por hospedagem, alimentação e deslocamento na capital paranaense, avisou que só bancaria os gastos das equipes nos três primeiros dias de competição, que corresponde à primeira fase de disputas. E que, a partir daí, só continuaria bancando as despesas dos times classificados para as fases decisivas.

Sem saber como se manteria em Curitiba caso não se classificasse, e sem ter garantias de financiamento por parte do Estado, o time de Caiçara, todo composto por jovens pobres da cidade, desistiu da viagem. Na última sexta-feira, o técnico da escola municipal, José Edson Francisco, ligou para Adriano Lucena, técnico do Motiva, e comunicou sua desistência.

O telefonema foi carregado de emoção. Mas o verdadeiro choro ainda estava por vir. Coincidentemente, Adriano estava num jantar com os pais dos atletas do time de basquete. Ele desligou o telefone. Avisou o teor da conversa. E se surpreendeu com a reação. Ninguém queria viajar. Queria, isto sim, viabilizar a viagem de quem realmente merecia.

Adriano ligou de volta para José Edson. E o que este escutou ainda agora lhe impressiona:

- Ele me ligou e disse que o Motiva não viajaria. Para minha surpresa, eles disseram que preferiam fazer uma campanha para que a gente viajasse. Estou emocionado até agora – declarou.

Em seguida, após uma breve pausa, o técnico do time de Caiçara completa:

- Já tínhamos jogado a toalha. Mas aí eles me disseram... Organize o seu time que vocês vão viajar. Para mim, essa é a prova maior de que o esporte é muito mais do que apenas um jogo.
Ele prossegue, quase sem conseguir segurar o choro:

- Somos de um programa social. São todos de famílias pobres. Não teríamos a menor chance de viajar. E, aí, o time que perdeu da gente resolve nos ajudar. Já teve mãe que se emocionou por causa do que os pais do outro time estão fazendo pelos nossos próprios meninos - declarou.

Tarik Pereira, pai de um atleta do Motiva, é um dos que encabeçam a campanha. Foi ele quem teve a iniciativa de convidar via redes sociais quem pudesse ajudar. Disponibilizou uma conta do Banco do Brasil e fixou o valor de R$ 6 mil como mínimo para custear sem riscos a viagem de ônibus. Quem quiser ajuda com o que pode.

- O projeto de Caiçara salva vidas e eles iriam desistir da viagem por causa da falta de condições. Isso seria um absurdo. Iniciamos a campanha e ela ganhou o país. Já recebemos dinheiro de todo o Brasil. Entraram depósitos do Rio de Janeiro e de São Paulo que a gente simplesmente não sabe de quem é – comemora Tarik.

Em um dia, já foram mais de quatro mil reais arrecadados. E, se de início a ideia era custear a viagem de ônibus, Tarik já vislumbra a possibilidade de conseguir comprar passagens aéreas para todos os nove atletas, o técnico e o assistente técnico.

Caiçara é um município que tem aproximadamente sete mil habitantes. E fica a 132km de João Pessoa. Se o time conseguir viajar, vai ser a primeira vez que a cidade vai representar a Paraíba no basquete dos Jogos Escolares da Juventude.

Fonte: G1 JP

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